A moda e a estética do sertão*

Quando vi pela primeira vez a emblemática fotografia das cabeças decepadas do bando de Lampião, muitos detalhes me passaram despercebidos. Foi preciso outros encontros com a imagem e olhares mais atentos, para que o detalhe mais interessante fosse revelado: as duas máquinas de costura nos cantos superiores da fotografia. Uma imagem carregada de simbolismo, que diz muito sobre a realidade da época.

uma das fotografias mais famosas da história do país, e as maquinas de costura lá…

No sertão da primeira metade do século 20 a máquina de costura tinha a importância que a televisão tem nos lares de hoje. O modelo Singer que aparece na foto, era o sonho de consumo das donas de casa. O sertão fechado, terreno inóspito, de chão rachado e tapetes de macambira, era o que os cangaceiros tinham para chamar de lar. E era onde se costurava, bordava e adornava.

A Singer vestia o cangaceiro para o combate, a criança para o batismo e a noiva para o altar. Cobria a viúva com o luto e as moças com o colorido da chita. Marcava períodos, fazendo bermudas  - que se chamavam calças curtas – para os meninos, e calças compridas para os homens. Coisas de um tempo em que ostentar o luxo de comprar roupas prontas, trazidas de fora, era coisa para pouquíssimos.

A estética do sertão é a estética da resistência. Da roupa usada até a fibra do algodão virar farelo. Do couro forjado em vestes para aguentar o peso da lida. Do vaqueiro com ares de cavaleiro medieval – não para se proteger de lanças de guerra, mas dos afiados espinhos da caatinga. Do aproveitar tudo até a última gota.

Muito ligado à natureza, o sertanejo carregava em sua indumentária as cores “puras”. O vermelho do sangue – para eles, o “encarnado” – lhes dava força. O branco das nuvens, a pureza. O azul, cor do manto de Nossa Senhora, também era a cor da água. E o homem do sertão tinha uma relação de verdadeira adoração com a água, sempre tão escassa, o que fazia com que o azul fosse a cor do acalanto, da serenidade. O amarelo, do ouro e da riqueza. Por vezes, todas as cores juntas, em combinações que a moda – aquela das passarelas – demorou a descobrir, mas que hoje não cansa de revisitar.

A herança estética que o sertão nos deixou é vasta. Rendas, bordados, estampas, materiais, texturas, artesanatos. Algumas dessas heranças mostram que a moda feita à mão tinha uma função social além da simples confecção das peças. O trabalho manual era momento de reflexão, era o divã das sertanejas. Quantas mães traçaram o destino dos filhos enquanto bordavam sentadas numa cadeira de balanço junto à janela? O olhar ora acompanhava a linha, ora se perdia no horizonte, mostrando que os dedos, de tão acostumados, já conseguiam seguir sozinhos, sem a supervisão dos olhos.

Imagem: daqui

Outras vezes, o divã era coletivo. Uma espécie de terapia de grupo onde as mulheres expurgavam os problemas familiares, dividiam experiências e falavam da vida de outrem – mais ou menos como fazem nas academias de ginástica de hoje. A “terapia de grupo” foi responsável por batizar um tipo de trabalho manual muito característico do sertão: o fuxico.  Creio que não há quem não conheça, mas não custa explicar: são pequenas peças feitas de retalho, que se unem para formar blusas, colchas, toalhas, ou o que  mais a criatividade permitir. A hora de costurar, era também a hora da fofoca. Ou do fuxico, como preferem os nordestinos. E assim ficou batizado.

O homem do sertão também era vaidoso. Comprar roupa nova para as festas de fim de ano e para o São João, era sagrado. Encontramos traços fortíssimos da vaidade masculina onde menos esperamos: entre os cangaceiros. Frederico Pernambucano de Mello diz em seu livro Estrela de couro, a estética do cangaço [2010], que “o bando de Lampião, sobretudo nos anos 30, possuía preocupações estéticas mais frequentes e profundas que as do homem urbano moderno”.

O próprio Lampião, vaidosíssimo, não abria mão do seu perfume predileto, o Fleurs D’Amour, da maison Roger & Gallet. A fragrância foi criada em 1904. Saiu de linha há anos, mas até hoje é possível encontrar raros frascos do Fleurs D’Amour à venda em sites como Ebay – a preço bem salgado, diga-se, por ser um perfume vintage.

O perfume preferido de Lampião, o Fleurs D’amour, em anúncio da época

Lampião também era um costureiro talentoso e dominava como ninguém a técnica do bordado à máquina. Há relatos de ex companheiros de cangaço, de que ele desenhava os modelos antes de levá-los à máquina, para garantir a perfeição (é certamente uma imagem cheia de dualidade, esta – a do cangaceiro estilista). Já alguns autores afirmam que trabalhos manuais delicados, como costura e bordado, tinham a função de higiene mental no cangaço.

A indumentária dos cangaceiros era imponente e chamava atenção de longe. À primeira vista, a falta de discrição no vestir seria uma contradição para um grupo que vivia quase sempre às escondidas, em fuga, perseguido pela polícia. Mas o traje do cangaceiro não era somente funcional: cada elemento da vestimenta tinha um papel importante de proteção – não só física, mas também espiritual. A “blindagem mística”, citada por Pernambucano de Mello.

Lampião sentando à máquina

Lembro de um episódio que meu bisavô adorava contar, sobre seu suposto encontro com Lampião, no sertão de Pernambuco. Vovô era rapazote e, no tal dia, dirigia por uma estrada de terra, conduzindo um carro carregado de bananas. Quando o veículo atolou, do meio do mato surgiu um grupo de homens, “com umas roupas que pareciam de vaqueiro, só que muito mais enfeitadas, cheias de moedas, coisas coloridas e coisas que faziam barulho”. Perguntaram o que o rapaz fazia, pra onde ia por aquelas estradas, e “se não tinha medo de encontrar Lampião”. Ao que meu avô, num ímpeto de coragem juvenil, respondeu: “Tenho medo não, que Lampião não é bicho”. O grupo deu uma gargalhada e ajudou o rapaz a desatolar o carro. Na despedida, apertaram as mãos e o chefe do bando disse: “Você sabe com quem está falando”? Diante da resposta negativa, ele concluiu: “Hoje você conheceu Virgulino Ferreira, o Lampião. E só deixamos você passar porque é um rapaz de coragem”.

Meu avô contava que depois disso “tremia feito vara verde” e demorou cerca de uma hora pra conseguir se acalmar, ligar o carro e ir embora.

Se a história é verdade, ou se ele contava apenas para deleite dos bisnetos, não sei. Mas sempre que ouvia isso, ficava imaginando as roupas daqueles homens.

O fascínio que a indumentária dos cangaceiros exercia sobre a minha imaginação de criança, não era diferente da admiração que causava ao povo da época. Há relatos de que até a polícia se deixou seduzir pelo visual do cangaço, e passou a se vestir de forma semelhante aos cangaceiros. Situação que fez um comandante emitir comunicado oficial proibindo os soldados de usarem qualquer coisa que não fizesse parte do uniforme em vigor, tais como “cartucheiras cow boy, chapéus exagerados à Lampião, enfeites amarelos nas bandoleiras, alpercatas de todo enfeitadas…”.

Mas, e hoje? Será que o sertão ainda guarda algum traço de pureza estética? 

“O sertão é um mundo que se foi” – afirmou certa vez Oswaldo Lamartine, em entrevista ao repórter Sérgio Vilar. Terá ido com ele, também, a identidade visual construída ao longo de tantos anos pelo povo sertanejo?

Para a escritora Clotilde Tavares, a televisão foi um forte agente transformador da estética do sertão. Com a TV vieram também as facilidades de acesso aos centros urbanos, às feiras do interior, à produção em larga escala. Hoje não há mais vantagem em costurar roupas em casa quando se pode ir à feira mais próxima e comprar peças a bom preço – e, o melhor, no mesmo estilo das celebridades televisivas.

Se algum resquício do estilo sertanejo de ontem ainda resiste, pensa Clotilde, ele se revela na paixão pelas cores. “Não conheço sertanejo que não adore uma cor forte, um colorido vivo, alegre. Hoje não vejo mais uma pureza estética no que se refere ao modo de vestir do sertanejo, mas o gosto pela cor permanece.”

De outra parte, o caminho inverso também acontece, e o sertão invade o resto do mundo através da TV. Uma das novelas de maior sucesso dos últimos tempos no país, Cordel Encantado – a “novela das seis” –, traz para as telas um sertão do início do século 20. A história se passa entre dois mundos imaginários – o reino de Seráfia, na Europa, e a cidade de Brogodó, no sertão brasileiro. O figurino é riquíssimo em detalhes, e, junto com a fotografia, é apontado como um dos principais elementos que contribuem para o sucesso do folhetim.

o romântico vestido de crochê da personagem Açucena. Comentado e desejado de norte a sul do país

Conversei com Karla Monteiro, que junto com  Marie Salles assina o figurino da novela. Ela contou que em meio ao extenso trabalho de pesquisa para montar o figurino dos personagens, surgiu o verbo “brogodar”, que se refere a bordar, tingir, trabalhar à mão as peças do núcleo da cidade de Brogodó. Tudo para dar vida a uma estética do sertão de ontem. Além disso, vários núcleos trabalham em conjunto para que elementos como rendas, bordados, couro e metal, estejam presentes no figurino. Ela resumiu parte do processo:

“Depois de ler a sinopse e de uma primeira conversa com nossos diretores Ricardo Waddington e Amora Mautner, onde a encomenda foi um mundo imaginário – afinal, os reinos de Serafia e a cidade de Brogodó não existem, a não ser no nosso texto –, começamos a pesquisa. Em um primeiro momento sobre a(s) época(s) da novela, final do século 19, quando a nossa história começa, e início do século 20. Depois fomos assistir filmes, pesquisar em alta costura, em livros de fotografia e álbuns de família. E  deixamos as necessidades de cada personagem ‘comandar’ nosso pensamento. Montamos vários ateliês. O de chapéu, comandado pelo Denis Linhares, chapeleiro carioca. O de envelhecimento e tingimento, e de marchetaria, com o Alex, artesão pernambucano, onde foi feito todo o trabalho de metal nas roupas dos cangaceiros. Dizemos que é um figurino de época com uma ‘pegada contemporânea’. Um olhar diferente da época porque cabe na nossa fábula brincar dessa forma. Quanto aos cangaceiros, a pesquisa foi feita em cima da indumentária dos vaqueiros, dos samurais, e sobre  Lampião e seu bando. Os gibões foram comprados em Fortaleza e adereçados no  nosso ateliê de marchetaria.” 

A moda brasileira há muito flerta com o sertão. Ora de maneira mais tímida, ora através de uma paixão mais declarada. O primeiro cupido desse affair foi provavelmente a mineira Zuzu Angel. Antes de entrar para a história por ter usado a moda para denunciar os horrores da ditadura, Zuzu já fazia história ao misturar artesanato nordestino com alta costura. O primeiro passo foi tingir algumas rendas – que eram utilizadas somente em panos de cozinha – na mesma cor dos tecidos nobres, e usar os dois materiais juntos em vestidos de festa. Depois ela fez peças com chita, bordados, labirinto, renda de bilro e até vestidos de noiva feitos com toalhas de mesa nordestinas.

o vestido noiva feito de toalha de mesa de Zuzu Angel

Outro aparecimento marcante do sertão na moda brasileira aconteceu em 2006, com a coleção “O sertão ri”, do também mineiro – e não acaso admirador do legado de Zuzu Angel – Ronaldo Fraga. A coleção foi toda inspirada na obra de Guimarães Rosa, especialmente em Grande Sertão: Veredas. Na apresentação do trabalho, o estilista afirmava: “O sertão é um só, e por não ter portas e janelas ele está em todo lugar.”

O sertão podia não ter portas, mas a moda brasileira tinha voltado a fechar algumas. Quarenta anos após Zuzu Angel, a desvalorização do artesanato nordestino havia voltado a ser uma pesada porta à espera de novamente ser derrubada. A renda de bilro era bonita para levar pra casa como lembrança das férias ensolaradas, mas para as passarelas – e para as vitrines mais refinadas – não servia.

O desfile de Ronaldo Fraga trouxe as cores e as texturas do sertão de volta aos holofotes. Nos anos seguintes, as próprias transformações sociais, que obviamente ecoam na moda, ajudaram a agregar valor e prestígio à estética nordestina. Começou-se a falar em economia criativa, sustentabilidade, e o artesanato ficou chique – passou a ser chamado handmade. Fazer o quê se a moda precisa de um estrangeirismo besta para agregar valor ao que antes não enxergava como tesouro?

modelos da coleção ‘O sertão ri’, de Ronaldo Fraga. Imagem: Oficina de Estilo

Assim, o sertão ganhou passe livre na alta costura brasileira. Entre uma coleção e outra, sempre aparece alguém tomando aquele pedaço de chão como inspiração. Mas o grande destaque dos tempos atuais, o sertão deve ao poder das novelas, como as maiores catalisadoras de tendências de moda do Brasil.

 “Para mim o artesanato nacional sempre esteve na moda, mas é uma surpresa que uma novela de época tenha essa força. O nosso intuito ao conceber e realizar o figurino foi a busca pelas características de cada personagem para ajudar a contar essa fábula deliciosa de fazer e de ver”, pondera a figurinista de Cordel Encantado.

Também têm um quê de fábula algumas coleções de estilistas potiguares inspiradas no sertão. Não por fugirem à realidade, mas por retratarem um sertão de lembranças.

A estilista Eveline Santos, da Avohai, fez uma coleção inspirada na natureza de Jardim do Seridó. As peças são cheias de detalhes que estimulam a memória afetiva de quem cresceu no sertão.

Em Currais Novos encontramos a Ana Marcolina, marca de Luciana Mamede, sempre bebendo na fonte  inesgotável de inspiração que é a região do Seridó.

Já o estilista Riccard8 San Martini, acaba de lançar uma coleção intitulada “Asa Branca”, que tem inspirações que transcendem a localização geográfica, mas que usa materiais tipicamente nordestinos – e já faz sucesso com um bracelete de couro que vestiria tão bem um cangaceiro quanto um gladiador.

croqui da coleção ‘Asa Branca’, de Riccard8 San Martini

Enquanto isso, em Nísia Floresta, a poucos quilômetros de Natal, um homem sonha com um Museu do Vaqueiro. Guardião da estética sertaneja, o empresário, músico e pecuarista Marcos Lopes é um purista quando se fala em tradição nordestina. Ele mantém um espaço onde funciona o tradicional Forró da Lua. O evento acontece uma vez por mês, promovendo um típico forró pé-de-serra, iluminado, é claro, pela lua cheia.

Marcos Lopes tomou pra si a missão de manter vivas as tradições do lugar onde cresceu. Com recursos do Banco do Nordeste (BNB), ele conseguiu viabilizar um projeto que oferece oficinas de sanfona e de artesanato em couro para crianças de Nísia Floresta. O mestre Júnior Souza vem de Cabaceiras,na Paraíba, ensinar a secular arte de trabalhar o couro, principalmente o couro de bode – o mais versátil e maleável. Durante as aulas são produzidos pequenos objetos como chaveiros, sandálias e chapéus em miniatura. A ideia é que com mão de obra especializada, o artesanato em couro possa vir a ser uma atividade econômica para a região.

O mestre explica que, em Cabaceiras, o couro é responsável por boa parte do dinheiro que circula na cidade. “Eu trabalho em uma fábrica de chapéus que fornece para o Nordeste inteiro. O couro é uma atividade econômica forte lá na minha cidade. Tem tradição, né, tem fama, aí todo mundo procura. Não falta trabalho pra quem quer e sabe trabalhar o couro. Já aqui a gente não vê esse tipo de trabalho”, compara.

Enquanto as crianças aprendem os mistérios do couro, é possível observar em cada canto da fazenda um pedacinho de história do Nordeste. Várias partes da indumentária do vaqueiro espalham-se pelo espaço. É o acervo do futuro Museu do Vaqueiro, que, enquanto não tem espaço próprio, fica exposto ali mesmo. Muita coisa está na família de Lopes há anos. Outras tantas são doações de gente que conhece o trabalho dele. Há um projeto aprovado na Lei de Incentivo à Cultura Câmara Cascudo para a construção do Museu, mas os recursos ainda não foram captados. Enquanto isso, Marcos vai catalogando as peças, e contagiando o máximo de pessoas que encontra pelo caminho com sua paixão pelo Nordeste. É assim, com um impressionante entusiasmo ao falar do museu, que ele consegue parcerias para colocar os planos em prática.

Fico imaginando como será quando o museu estiver pronto. Durante a curta, mas intensa “viagem” que fiz, olhando as selas, chapéus e gibões, penso que entrar nesse museu será como atravessar uma porteira de fazenda. Daquelas fazendas que quase todo Nordestino tem na lembrança. Mesmo quem nasceu no litoral e visitava o sertão somente nas férias, como eu. Mesmo quem não tinha essas férias, mas que, ao menos uma vez na vida, foi recebido em uma casa sertaneja.

E aí pensei na força da estética do sertão. Porque sempre que se fala em uma imagem que represente o Nordeste, a primeira visão que nos vem é a do sertão e não do litoral. É admirável o poder de um ambiente cinzento e pobre, que consegue se sobressair à outro leve e próspero.

É a bela vitória da meia-lua com estrela sobre a vela da jangada.

*texto originalmente publicado na revista Preá #24. Para ler outros artigos da revista, consulte a versão on line aqui.


 

33 Responses to "A moda e a estética do sertão*"

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  1. Riccardo San Martini

    20 de outubro de 2011 at 1h36

    Garota… Que texto fenomenal… A parte que vc conta do seu avô é emocionante!!!! Estou de veras encantado com seu trabalho, extremamente orgulhoso e grato por ser citado nele!!!!

    Parabéns e muito obrigado!

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  2. Riccardo San Martini

    20 de outubro de 2011 at 1h54

    O ambiente é cinzento e pobre e consegue se sobressair por ser único!

    Por isso em “Asa Branca” os vestidos são únicos, para representar esta singularidade do sertão!!!!

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  3. Mag

    20 de outubro de 2011 at 9h08

    Viajei no texto. Menina, nunca tinha reparado nas máquinas de costura daquela fotografia. O sertão é mesmo muito rico em beleza e inspiração.
    Minha vó, uma paraibana mulher macho (rs), Maria Rita, também contava umas histórias sobre o cangaço, dizia ela (e ai, de quem dissesse não ser verdade) que era prima (distante) de Lampião. Ela foi uma das primeiras referências de moda que tive, usava muitas cores, bordados, renda e joias e nunca comprou uma calcinha na vida, ela era quem as fazia (hot pants rsrs), achava fantástico.
    Adorei o post!

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    • Salto Agulha

      20 de outubro de 2011 at 9h30

      Que lindo Mag! Minha avo tb eh a responsável pelo eu gosto por moda hj! :)

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  4. Tatiana Lima

    20 de outubro de 2011 at 10h07

    Ai, quero essa Preá pra mim!! (Eu adoro revista mesmo, impressa..rs)
    Trabalho de reportagem super esmerado, e que ficou um presente pra quem lê, Gladis.
    Parabéns e muito obrigada!! ;-)

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    • Salto Agulha

      20 de outubro de 2011 at 18h31

      Passa lá na fundação José Augusto pra pegar uma Preá pra você, Tati! E eu que agradeço suas visitas por aqui :) xero!

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  5. Sarina Sena

    20 de outubro de 2011 at 10h12

    Que texto bacana, Gladão! Parabéns! E confesso que sempre olhei hipnotizada pra foto das cabeças dos cangaceiros mas nunca havia reparado nas máquinas de costura. E, sim, quem é do nordeste sempre tem ótimas histórias sobre Lampião e os cangaceiros contadas pelos avós, tios ou algum parente mais velho. Sempre causa admiração, fascínio e faz a mente viajar (fiquei pensando se seu avó não deu umas bananinhas como agradecimento ao bando… kkkkkkkkkkkkk). E sabe que o famoso artesão, Seu Expedito Celeiro, faz as famosas sandálias Lampião do modelo original que o cangaceiro encomendou pra seu pai? São mesmo lindas e cheias de detalhes. Meu marido tem uma e calça cheio de orgulho da sua origem sertaneja! Bjs!

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  7. João da Mata Costa

    20 de outubro de 2011 at 11h46

    Texto muito legal. Parbéns. Escrevi sobre o mesmo tema e publiquei no JH e SP. abç.damata

    A estética colorida e perfumada do Cangaço

    João da Mata Costa

    “Olé, Mulher Rendeira,
    Olé mulhé rendá
    Tu me ensina a fazer renda,
    eu te ensino a namorá”.

    Lampião foi o rei do cangaço e praticou muitos crimes. Também tinha seu
    lado de dãndi. Vestia-se muito bem e abusava do perfume francês “Fleur d’Amour”. Leitor assíduo das revistas “0 Cruzeiro”, “FonFon” e “Noite Ilustrada”, de onde criou o gosto pela fotografia. Carregava sempre um livro de Papini e era um devoto do Padim-Ciço.

    O perfume Madeira do Oriente era usado pela maioria dos cangaceiros que os denunciavam ao longe – debaixo da concha celeste, banhados por um sol inclemente de se arrepiá.

    No filme “Baile Perfumado” dos diretores Lírio Ferreira e Paulo Caldas, uma alusão aos bailes perfumados dos cangaceiros entre uma peleja e outra. Esse filme narra a história do mascate libanês Benjamin Abrahão que se embrenhou na caatinga e conseguiu filmar o bando de Lampião deixando imagens inestimáveis para conhecimento dessa grande saga.

    Ao contrário dos sertanejos da época, os cangaceiros valorizavam o enfeite. Usavam brincos, anéis, colares e lenços estampados de seda inglesa ou tafetá francês. Muitos dos pertences do Lampião eram bordados com a sigla C.V.F.L. (Capitão Virgulino Ferreira Lampião).

    A indumentária dos cangaceiros trazia uma rica carga simbólica. O Chapéu de Couro com a estrela hexagonal de Salomão era inspirado no chapéu de Napoleão Bonaparte, de quem o “Rei do Cangaço” conhecia a biografia e muito admirava. As armas dos cangaceiros eram ricamente cravadas de ouro e prata. Suas roupas tinham inspiração nos cavaleiros medievais e os bornais e cantis eram ricamente bordados com temas da caatinga.

    “ Essa carga artística dos trajes dos cangaceiros representa o que Gilberto Freyre chamava “‘arte de projeção do homem”. O homem a carregar consigo sua própria arte, sem vergonha da sua condição de bandoleiro e assassino.

    Foram esses ricos elementos contidos na indumentária dos cangaceiros nordestinos que motivaram o historiador Frederi­co Pernambucano de Mello, a escrever o belo livro “Estrelas de Couro: A Estética do Cangaço” (Escritu­ras 253p), com prefácio de Ariano Suassuna.

    O Livro de Arte é enriquecido com 300 imagens referentes á saga lampiônica e 160 fotografias de objetos de uso pessoal dos cangaceiros. A maior parte desses objetos é parte da coleção particular do autor e já foram expostos no Brasil e exterior. O livro é um ensaio de caráter interdisciplinar e mostra a rica estética do cangaço. Uma estética que se espraiou no grande cinema de Glauber Rocha e pintura de Aldemir Martins. A valentia desses homens povoa o imaginário dos nordestinos e fornece material para centenas de cordéis e rico artesanato. Uma saga que deita suas raízes no substrato de uma terra onde os homens faziam justiça por si mesmo, seja por vingança, por terra e posses ou por motivos políticos.

    As armas e os bordados

    As armas usadas pelo rei do Cangaço morto em 1938 por traição de um dos seus protetores, eram ornamentadas de ouro e prata. A vestimenta dos cangaceiros eram muito ricas, coloridas e vistosas.

    O Chapéu quebrado na frente e atrás, continham “três barbelas”: a testeira que era ajaezada com moedas de ouro e prata, e trazia a estrela hexagonal de Salomão; o barbicacho dianteiro, saindo das laterais e unindo as duas fitas de couro e o barbicacho traseiro, continuação da testeira, também enfeitado de moedas. Essas barbelas davam segurança ao chapéu e não permitia que ele caísse nos movimentos bruscos. Em torno do pescoço os cangaceiros usavam um lenço de tecido valioso que podia ser seda. Lampião preferia tafetá francês. Esse lenço era preso por um anel ou aliança de metal nobre. Os cangaceiros usavam o termo “jabiraca” para designar essa bela indumentária.

    Os cangaceiros eram bastante vaidosos e usavam brincos e colares, não tendo vergonha da sua situação de bandoleiros. Os homens e mulheres usavam até três anéis por dedo. Os cangaceiros vestiam-se de brim cáqui ou mescla azul. Lampião preferia a cor cinza e costurava com uma máquina Singer. Os cangaceiros usavam uma túnica e uma calça de cintura alta que ficava acima do tornozelo (pega bode). Quando o tempo esfriava eles podiam vestir até três calças.

    Por cima da túnica, o cangaceiro cruzava diagonalmente duas cobertas feitas de bramantes estampados de padrões muito coloridos, forrados de chita branca. Uma coberta era para deitar e outra para cobrir. As mulheres entraram para o cangaço em 1929/30 e eram muito respeitadas. Suas saias ficavam acima do joelho, numa ousadia para a época.

    Por cima das cobertas eram colocados os bornais, também chamados embornais. Eram bolsas muito coloridas e de belos desenhos nas abas Nos bornais eram colocados os alimentos: Carne seca, farinha e queijo.

    As alpercatas de rabicho e tangerino eram ricamente desenhadas e confeccionadas em couro. Quando ia para a rua Lampião usava um sandália de couro esmaltado. Dadá “a musa do cangaço”-esposa de Corisco era a estilista do grupo e trouxe flores e outros motivos para a indumentária dos cangaceiros.

    As armas eram cravejadas de moedas de ouro e a cartucheira de ombro era muito funcional. Entre o corpo e a cartucheira era inserido um punhal de três quinas ou achatados. A empunhadura do punhal era ricamente ornamentada em ouro e prata. O facão que o cangaceiro trazia na altura da cintura servia de ferramenta.

    As Armas e Utensílios encontrados com o Rei do Cangaço

    O chapéu de couro do capitão Virgulino, vulgo Lampião, morto na Grota dos Angicos em Sergipe (1938), tinha abas ornamentadas em alto-relevo com seis sinos de Salomão, barbicacho de couro de 46 centímetros de comprimento e ornado em ambos os lados com cinqüentas peças de ouro. Lampião tinha três anéis: um de pedra verde, outro uma aliança e o terceiro de identidade gravado “ Santinha”. A testeira de ouro de quatro centímetros de largura e vinte e dois centímetros de comprimento, onde eram afixadas moedas e medalhas – duas com gravações “ “Deus te Guie” , duas libras esterlinas, uma moeda brasileira de ouro, com a efígie de Petrus II, de 1855 e mais duas outras moedas em ouro.

    O mosquetão-Mauser modelo 1908, com bandoleira enfeitada com sete escudos de prata de Império. A faca de folha de aço, com sessenta e sete centímetros de comprimento, com cabo e terço de níquel, adornado com três anéis de ouro; bainha toda de níquel com forro interno de couro. A cartucheira era de couro com enfeites de costumes da caatinga. Um apito de metal amarelo preso a uma corrente de prata.

    Com Lampião foram encontrados vários bornais. Todos com desenhos de várias cores bordado a maquina. Um deles tinha botões de ouro e prata. No suspensório nove botões de prata e apenso num dos bornais uma caixa de folha- de- flandres, coberta com o mesmo pano dos bornais e também bordado à máquina (Cancioneiro de Lampião, Nertan Macedo 1959)

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  8. Paulo Procópio

    20 de outubro de 2011 at 12h34

    Que texto bacana, moça!

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  9. Cinthia

    20 de outubro de 2011 at 14h27

    Parabéns Gladys, a reportagem está um primor.

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  10. Carmen Vasconcelos

    20 de outubro de 2011 at 18h00

    Muito bom esse seu texto. Cheio de POESIA. Adorei!

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  11. Juliana

    20 de outubro de 2011 at 18h19

    Que texto incrível! o sertão me ensinou a ser gente grande e nunca mais sai de mim. Parabéns pelo trabalho, mostra que blog de moda pode sair dos assuntos únicos que tenho visto em outros tantos (consumo/look/ exibicionismo) e não precisa ofender a inteligência de quem lê.

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    • Salto Agulha

      20 de outubro de 2011 at 22h32

      que lindo isso “o sertão me ensinou a ser gente grande e nunca mais saiu de mim”. Juliana e Lisa, o sertão nunca vai nos deixar. O sertão é mais que um pedaço de chão, e por isso tão especial pra quem o carrega na alma! Tivemos sorte. Beijos!

      Responder
  12. Lisa

    20 de outubro de 2011 at 22h12

    eu também carrego um pedacinho do sertão dentro de mim. Como comentaram antes, o sertão em ensinou a ser gente grande e me emocionei muito com esse texto!

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  13. Angelina Cavalcante

    21 de outubro de 2011 at 8h39

    Interessante, adoro esses seus textos que conectam moda e cultura. Parabéns! :*

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  14. Thalita

    28 de outubro de 2011 at 15h35

    Nossa, parabéns! Não entendo muito de moda, mas gosto. Vou ser sincera, sou ligeiramente preguiçosa para ler longos textos, mas o seu me despertou muito o interesse! Mais uma vez PARABÉNS! Sucesso!

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  15. khrystal

    29 de outubro de 2011 at 2h07

    Eita que texto Delícia
    Bicha,Você escreve Lindoo!
    Viajei Total..
    PARA TUDO // O VESTIDO DE ZUZU // /
    Que Riqueza..
    Só tú mesmo pra encontrar essas máquinas de costura na foto..kkk
    sempre evitei ficar olhando.acho punk!
    Nasci e Cresci na Cidade,más na família sertanejo é o q não falta.
    Isso tudo me comove muito e sinto falta dessa “praia ” mais presente na moda
    de maneira mais explícita.
    A coleção de Ronaldo Fraga é bacana e tals,más a figurinista do Folhetim das seis
    viajou mais na onda.

    Xeroka

    Responder
  16. Canniggia de Carvalho

    31 de outubro de 2011 at 11h54

    Gladis, o seu texto está uma coisa linda. Nunca vi um algo tão bonito que falasse do sertão, é um tanto poético.
    Eu gostei muito, e poderia destacar várias passagens que mais me chamaram atenção.
    No mais, super parabéns e continue assim, dizendo que “A estética do sertão é a estética da resistência”.

    Um beijo

    Responder
  17. Bruno

    4 de novembro de 2011 at 21h57

    Que texto rico, Gladis, parabéns!

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  18. André Parra

    25 de novembro de 2011 at 13h57

    Parabéns pelo texto! Finíssimo e Lindo!!!

    Beijo!

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  21. zeca corrêa leite

    25 de março de 2012 at 17h48

    Acabei chegando aqui por vias diversas e transversas, acho que um anjo me trouxe até estas linhas.
    Não tenho ligação com moda, mas textos de qualidade me chamam a atenção e aprisionam.
    A sua forma de escrever, o olhar que você tem pelas coisas, os detalhes ganhando vida… nossa!
    Você lapida palavras sem deixar de sair do tema, nem cria fantasia comprometendo o real.
    Muito lindo.
    Achei também de ler as cartas, esperando pelos elogios, pelas surpresas dos leitores, mas descobri que
    tem gente que não se aguenta em falar de si…
    Pombas, este espaço é seu!
    Parabéns.
    Fiquemos com Deus.
    Zeca.

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  23. luiz

    3 de julho de 2012 at 15h03

    eu gostei muito ddess aroupas e eu vou conpra woooooooooooooow

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  26. julobo

    12 de novembro de 2012 at 20h05

    FANTÁSTICO

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  28. Régis

    15 de abril de 2013 at 21h49

    Parabéns!!! Adorei ler novamente, é um texto rico de informações que da vontade de não parar de ler!!
    Beijos!!

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  29. rayssa dandara

    14 de maio de 2013 at 17h15

    que testo legal…estou fazendo um trabalho de escola sobre isso e de todos os sites que procurei o seu foi o melhor e mais completo,tem muita gente que critica o vestuário nordestino e esse texto foi um tapa na cara pra essas pessoas.Super demais A-DO-REI o texto e com certeza vou tirar um 10

    Beijos!!!!!!!S2

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  30. Cibele

    19 de dezembro de 2013 at 10h01

    Oi,

    faço bonecas e outros mimos bordadas, acabo de fazer uma “zuzu do cangaço” um presente especial para o aniversário da minha irmã e procurava textos sobre esta fase de zuzu angel e encontrei seu texto. Que lindo! quanta informação. Parabéns e obrigada!! Cibele

    Responder

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