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Produção de moda para “transformação” em Coco Chanel

Estava eu  em casa, bem sossegadinha, e minha amiga querida Nalva Melo me liga dizendo…

“ei Gladis, vou fotografar mais um Nalva Faz Minha Cabeça, a inspiração é Coco Chanel e queria que você desse um help no figurino”.

Mas é claaaaro que eu adorei, né!?

O Nalva Faz a Minha Cabeça é um projeto de Nalvete, no qual ela convida clientes do salão e os transforma em algumas personalidades famosas.

O foco do trabalho é cabelo e maquiagem, mas o figurino tem um poder de contextualizar as coisas que é inegável, então ela me pediu essa ajuda.

Juntei tudo que eu tinha de acervo e que poderia ajudar a montar uma Gabrielle “Coco” Chanel, e fui lá pro Café Salão.

Nossa personagem foi a jornalista e bailarina Carol Reis, essa bunita aqui ó:

Durante as fotos, postei no Instagram  duas imagens que mostravam como estava ficando o trabalho…

Já deu pra sentir que ficou fino o negócio, né?

E hoje tive acesso a algumas fotos de making of. O trabalho deve ser divulgado próxima semana, mas os bastidores a gente já pode liberar ;)

O fotógrafo foi o Vlademir Alexandre, e tivemos três cenários: o antiquário Galpão 223, o Consulado Bar (uma construção remanescente da época da guerra, que tem o famoso chão de suásticas) e o próprio Café Salão.

E aí, ficaram curiosos para ver o resultado? :D

O clipe de Khrystal

Como já falei aqui, cuidei do visual da cantora Khrystal para a gravação de um videoclipe dela.

A gravação e a edição são de Rita Machado. A ideia era fazer uma coisa simples, e bem crua. Sem muita firula – de figurino, de câmeras, de iluminação… era só Ritinha com a câmera, e Khrystal andando pelos bairros da Zona Norte.

Muita gente já deve conhecer a música, que fala de preconceito, desigualdade, barreiras sociais… Khrystal não tem medo de botar o dedo na ferida, e a música é uma crítica social forte.

Quem não é de Natal e lê o blog, convido a conhecer essa cantora que é um dos nossos orgulhos aqui no RN :D

 

Workshop em Mossoró

Oi Gente!

Hoje pego a estrada rumo à Mossoró para ministrar um workshop sobre figurino de Televisão.

O evento está sendo promovido pela TCM, para os jornalistas e apresentadores de programas da emissora.

Recebi alguns emails de pessoas perguntando como participar do curso, mas infelizmente esse workshop é restrito aos funcionários e convidados da TCM. Eu não estou organizando, apenas fui contratada para ministrá-lo.

Quem quiser muito participar, pode tentar conseguir um convite lá na emissora.

Mas se vocês juntarem um grupinho de ineterssados, a gente pode organizar um outro curso e eu volto ao país de Mossoró para atender todo mundo, ok? :D

 

 

O clipe da cantora Khrystal

Oi Gente! To sumidinha, né?

Mas quando eu sumir assim, fiquem felizes porque é sinônimo de muito trampo, e, consequentemente, falta de tempo :D Sim, porque eu trabalho viu? Vivo de ser blogayra não! kkkkk

Então…

um desses trabalhos foi a produção de moda para a gravação de um videoclipe da cantora Khrystal.

A música Zona Norte/ Zona Sul fala das diferenças sociais na nossa cidade, de preconceito e discriminação. Mas é, ao mesmo tempo, e apesar da carga forte de crítica  social, uma canção muito bonita.

A ideia do clipe é que Khrystal estivesse andando pelos lugares da Zona Norte que ela cita na música, interagindo com as pessoas e fazendo parte de verdade daquele ambiente.

A documentarista Rita Machado gravava tudo com uma câmera de mão, sem tripé, sem muitas firulas de iluminação. O objetivo era esse mesmo, uma câmera acompanhando Khrystal pela Zona Norte.

O visual dela tinha que ser bonito, mas não excessivamente produzido. Não poderia ser uma roupa que limitasse os movimentos, pois Khrystal ia subir escadas, ladeiras, sentar no chão, jogar bola com as crianças… por isso pensamos em usar um macacão.

Além disso não poderia ser nada que fugisse muito do estilo da cantora, que gosta de tudo o mais natural possível. Detesta muitas firulas e passa longe do salto alto (pelo menos por enquanto hehehe).

Para minha sorte, encontramos um macacão do jeitinho que a gente queria, lá na Bain Douche.

E Khrystal gostou tanto da ideia do macacão, que ainda comprou mais dois (em outros modelos, é claro) para usar “na vida real”.

Fiz alguns poucos registros durante a gravação. Não deu para fotografar direito porque não levei câmera, todas as fotos foram feitas com o iPhone.

Mas quando o clipe tiver pronto e editado, coloco aqui pra vocês verem como ficou.

Na porta de uma casinha bem simples, mas cheia de poesia, na comunidade da África.

Outra na África. Essa casa aí tinha uma plaquinha assim: “Bazar. Remonta-se roupas e bolsas” e várias peças penduradas na varanda. Achei lindo!

 

Na linha de trem perto da ponte de Igapó.

Gravamos com o por do sol da ponde de Igapó! Nunca tinha atravessado a ponte a pé, a luz é linda no rio perto do fim da tarde.

Essa eu roubei do Instagram de Khrystal! Adorei essa foto dela com Carlinha, uma menina super fofa que encontramos pelo caminho e participou do clipe.

É isso gente. Sei que não dá pra ver muitos detalhes nas fotos, mas quando o clipe estiver pronto vocês vão ver tudinho.

Para quem quiser ouvir e/ou baixar a música Zone Norte/Zona Sul, tem link do 4Shared aqui.

 

 

Navy para gravação da TV

Semana passada a TV Assembléia gravou uma matéria comigo sobre a profissão de consultora de imagem.

A reportagem já foi ao ar, e está sendo reprisada dentro da programação da TV, num programa sobre mercado de trabalho e negócios.

Falei sobre moda, qualificação, formação, mercado…

quem se interessar, fica de olho aí na programação da TV – que é o canal 36 da Cabo, ou 50 na tv aberta.

No dia da gravação fiz uma combinação bem navy, usando uma mariniere e a minha pantalona (que amo e quero usar todo dia. Vocês perceberam nas últimas fotos, né? hahahahaha).

Nas fotos comigo, a repórter Larisse de Souza.

Vou tentar conseguir o vídeo da matéria para postar aqui no blog depois, ok?
:D

 

Mais um figurino Uma Graça

Ô trabalhinho bom de fazer é esse de consultoria de moda…

cuido do visual das minhas clientes como se estivesse arrumando minhas Barbies hahahahaha (brincadeira viu, é tudo muito sério e profissional. Mas quando a gente faz o que gosta, não tem como não ser divertido também. Ainda bem!)

Na última sexta-feira Camila fez mais um show junto com a Orquestra Sinfônica da UFRN.

Dessa vez a apresentação foi no encerramento da CIENTEC. Era um evento mais descontraído por estar na programação de uma feira de conhecimento da universidade, mas ainda assim pedia a classe e a reverência que uma orquestra sempre exige.

Optamos por um modelo quase todo branco, com um único detalhe em preto. O vestido é mais uma vez da Uma Graça.

É um vestido bem versátil, viu, meninas? Super indico ter um vestido longo e sem muitos detalhes no closet. Dependendo do cabelo e dos acessórios, ele poderá ser usado nas mais diversas ocasiões.

Os acessórios são todos S Design.

Os acessórios mais de pertinho:

me apaixonei por esse anel da S Design. É daquelas coisas com carinha vintage que me ganham na hora!

E ainda tem aqui algumas fotos que “furtei” do facebook, pra ver como ficou o vestido de longe, no palco:

Para quem gosta desse tipo de post, tem outros figurinos de show de Camila aqui e aqui.

 UPDATE: esqueci de dizer, mas, antes que vocês perguntem, cabelo e maquiagem foi mais uma vez obra de Dell Marques, do TG Chic.

A moda e a estética do sertão*

Quando vi pela primeira vez a emblemática fotografia das cabeças decepadas do bando de Lampião, muitos detalhes me passaram despercebidos. Foi preciso outros encontros com a imagem e olhares mais atentos, para que o detalhe mais interessante fosse revelado: as duas máquinas de costura nos cantos superiores da fotografia. Uma imagem carregada de simbolismo, que diz muito sobre a realidade da época.

uma das fotografias mais famosas da história do país, e as maquinas de costura lá…

No sertão da primeira metade do século 20 a máquina de costura tinha a importância que a televisão tem nos lares de hoje. O modelo Singer que aparece na foto, era o sonho de consumo das donas de casa. O sertão fechado, terreno inóspito, de chão rachado e tapetes de macambira, era o que os cangaceiros tinham para chamar de lar. E era onde se costurava, bordava e adornava.

A Singer vestia o cangaceiro para o combate, a criança para o batismo e a noiva para o altar. Cobria a viúva com o luto e as moças com o colorido da chita. Marcava períodos, fazendo bermudas  - que se chamavam calças curtas – para os meninos, e calças compridas para os homens. Coisas de um tempo em que ostentar o luxo de comprar roupas prontas, trazidas de fora, era coisa para pouquíssimos.

A estética do sertão é a estética da resistência. Da roupa usada até a fibra do algodão virar farelo. Do couro forjado em vestes para aguentar o peso da lida. Do vaqueiro com ares de cavaleiro medieval – não para se proteger de lanças de guerra, mas dos afiados espinhos da caatinga. Do aproveitar tudo até a última gota.

Muito ligado à natureza, o sertanejo carregava em sua indumentária as cores “puras”. O vermelho do sangue – para eles, o “encarnado” – lhes dava força. O branco das nuvens, a pureza. O azul, cor do manto de Nossa Senhora, também era a cor da água. E o homem do sertão tinha uma relação de verdadeira adoração com a água, sempre tão escassa, o que fazia com que o azul fosse a cor do acalanto, da serenidade. O amarelo, do ouro e da riqueza. Por vezes, todas as cores juntas, em combinações que a moda – aquela das passarelas – demorou a descobrir, mas que hoje não cansa de revisitar.

A herança estética que o sertão nos deixou é vasta. Rendas, bordados, estampas, materiais, texturas, artesanatos. Algumas dessas heranças mostram que a moda feita à mão tinha uma função social além da simples confecção das peças. O trabalho manual era momento de reflexão, era o divã das sertanejas. Quantas mães traçaram o destino dos filhos enquanto bordavam sentadas numa cadeira de balanço junto à janela? O olhar ora acompanhava a linha, ora se perdia no horizonte, mostrando que os dedos, de tão acostumados, já conseguiam seguir sozinhos, sem a supervisão dos olhos.

Imagem: daqui

Outras vezes, o divã era coletivo. Uma espécie de terapia de grupo onde as mulheres expurgavam os problemas familiares, dividiam experiências e falavam da vida de outrem – mais ou menos como fazem nas academias de ginástica de hoje. A “terapia de grupo” foi responsável por batizar um tipo de trabalho manual muito característico do sertão: o fuxico.  Creio que não há quem não conheça, mas não custa explicar: são pequenas peças feitas de retalho, que se unem para formar blusas, colchas, toalhas, ou o que  mais a criatividade permitir. A hora de costurar, era também a hora da fofoca. Ou do fuxico, como preferem os nordestinos. E assim ficou batizado.

O homem do sertão também era vaidoso. Comprar roupa nova para as festas de fim de ano e para o São João, era sagrado. Encontramos traços fortíssimos da vaidade masculina onde menos esperamos: entre os cangaceiros. Frederico Pernambucano de Mello diz em seu livro Estrela de couro, a estética do cangaço [2010], que “o bando de Lampião, sobretudo nos anos 30, possuía preocupações estéticas mais frequentes e profundas que as do homem urbano moderno”.

O próprio Lampião, vaidosíssimo, não abria mão do seu perfume predileto, o Fleurs D’Amour, da maison Roger & Gallet. A fragrância foi criada em 1904. Saiu de linha há anos, mas até hoje é possível encontrar raros frascos do Fleurs D’Amour à venda em sites como Ebay – a preço bem salgado, diga-se, por ser um perfume vintage.

O perfume preferido de Lampião, o Fleurs D’amour, em anúncio da época

Lampião também era um costureiro talentoso e dominava como ninguém a técnica do bordado à máquina. Há relatos de ex companheiros de cangaço, de que ele desenhava os modelos antes de levá-los à máquina, para garantir a perfeição (é certamente uma imagem cheia de dualidade, esta – a do cangaceiro estilista). Já alguns autores afirmam que trabalhos manuais delicados, como costura e bordado, tinham a função de higiene mental no cangaço.

A indumentária dos cangaceiros era imponente e chamava atenção de longe. À primeira vista, a falta de discrição no vestir seria uma contradição para um grupo que vivia quase sempre às escondidas, em fuga, perseguido pela polícia. Mas o traje do cangaceiro não era somente funcional: cada elemento da vestimenta tinha um papel importante de proteção – não só física, mas também espiritual. A “blindagem mística”, citada por Pernambucano de Mello.

Lampião sentando à máquina

Lembro de um episódio que meu bisavô adorava contar, sobre seu suposto encontro com Lampião, no sertão de Pernambuco. Vovô era rapazote e, no tal dia, dirigia por uma estrada de terra, conduzindo um carro carregado de bananas. Quando o veículo atolou, do meio do mato surgiu um grupo de homens, “com umas roupas que pareciam de vaqueiro, só que muito mais enfeitadas, cheias de moedas, coisas coloridas e coisas que faziam barulho”. Perguntaram o que o rapaz fazia, pra onde ia por aquelas estradas, e “se não tinha medo de encontrar Lampião”. Ao que meu avô, num ímpeto de coragem juvenil, respondeu: “Tenho medo não, que Lampião não é bicho”. O grupo deu uma gargalhada e ajudou o rapaz a desatolar o carro. Na despedida, apertaram as mãos e o chefe do bando disse: “Você sabe com quem está falando”? Diante da resposta negativa, ele concluiu: “Hoje você conheceu Virgulino Ferreira, o Lampião. E só deixamos você passar porque é um rapaz de coragem”.

Meu avô contava que depois disso “tremia feito vara verde” e demorou cerca de uma hora pra conseguir se acalmar, ligar o carro e ir embora.

Se a história é verdade, ou se ele contava apenas para deleite dos bisnetos, não sei. Mas sempre que ouvia isso, ficava imaginando as roupas daqueles homens.

O fascínio que a indumentária dos cangaceiros exercia sobre a minha imaginação de criança, não era diferente da admiração que causava ao povo da época. Há relatos de que até a polícia se deixou seduzir pelo visual do cangaço, e passou a se vestir de forma semelhante aos cangaceiros. Situação que fez um comandante emitir comunicado oficial proibindo os soldados de usarem qualquer coisa que não fizesse parte do uniforme em vigor, tais como “cartucheiras cow boy, chapéus exagerados à Lampião, enfeites amarelos nas bandoleiras, alpercatas de todo enfeitadas…”.

Mas, e hoje? Será que o sertão ainda guarda algum traço de pureza estética? 

“O sertão é um mundo que se foi” – afirmou certa vez Oswaldo Lamartine, em entrevista ao repórter Sérgio Vilar. Terá ido com ele, também, a identidade visual construída ao longo de tantos anos pelo povo sertanejo?

Para a escritora Clotilde Tavares, a televisão foi um forte agente transformador da estética do sertão. Com a TV vieram também as facilidades de acesso aos centros urbanos, às feiras do interior, à produção em larga escala. Hoje não há mais vantagem em costurar roupas em casa quando se pode ir à feira mais próxima e comprar peças a bom preço – e, o melhor, no mesmo estilo das celebridades televisivas.

Se algum resquício do estilo sertanejo de ontem ainda resiste, pensa Clotilde, ele se revela na paixão pelas cores. “Não conheço sertanejo que não adore uma cor forte, um colorido vivo, alegre. Hoje não vejo mais uma pureza estética no que se refere ao modo de vestir do sertanejo, mas o gosto pela cor permanece.”

De outra parte, o caminho inverso também acontece, e o sertão invade o resto do mundo através da TV. Uma das novelas de maior sucesso dos últimos tempos no país, Cordel Encantado – a “novela das seis” –, traz para as telas um sertão do início do século 20. A história se passa entre dois mundos imaginários – o reino de Seráfia, na Europa, e a cidade de Brogodó, no sertão brasileiro. O figurino é riquíssimo em detalhes, e, junto com a fotografia, é apontado como um dos principais elementos que contribuem para o sucesso do folhetim.

o romântico vestido de crochê da personagem Açucena. Comentado e desejado de norte a sul do país

Conversei com Karla Monteiro, que junto com  Marie Salles assina o figurino da novela. Ela contou que em meio ao extenso trabalho de pesquisa para montar o figurino dos personagens, surgiu o verbo “brogodar”, que se refere a bordar, tingir, trabalhar à mão as peças do núcleo da cidade de Brogodó. Tudo para dar vida a uma estética do sertão de ontem. Além disso, vários núcleos trabalham em conjunto para que elementos como rendas, bordados, couro e metal, estejam presentes no figurino. Ela resumiu parte do processo:

“Depois de ler a sinopse e de uma primeira conversa com nossos diretores Ricardo Waddington e Amora Mautner, onde a encomenda foi um mundo imaginário – afinal, os reinos de Serafia e a cidade de Brogodó não existem, a não ser no nosso texto –, começamos a pesquisa. Em um primeiro momento sobre a(s) época(s) da novela, final do século 19, quando a nossa história começa, e início do século 20. Depois fomos assistir filmes, pesquisar em alta costura, em livros de fotografia e álbuns de família. E  deixamos as necessidades de cada personagem ‘comandar’ nosso pensamento. Montamos vários ateliês. O de chapéu, comandado pelo Denis Linhares, chapeleiro carioca. O de envelhecimento e tingimento, e de marchetaria, com o Alex, artesão pernambucano, onde foi feito todo o trabalho de metal nas roupas dos cangaceiros. Dizemos que é um figurino de época com uma ‘pegada contemporânea’. Um olhar diferente da época porque cabe na nossa fábula brincar dessa forma. Quanto aos cangaceiros, a pesquisa foi feita em cima da indumentária dos vaqueiros, dos samurais, e sobre  Lampião e seu bando. Os gibões foram comprados em Fortaleza e adereçados no  nosso ateliê de marchetaria.” 

A moda brasileira há muito flerta com o sertão. Ora de maneira mais tímida, ora através de uma paixão mais declarada. O primeiro cupido desse affair foi provavelmente a mineira Zuzu Angel. Antes de entrar para a história por ter usado a moda para denunciar os horrores da ditadura, Zuzu já fazia história ao misturar artesanato nordestino com alta costura. O primeiro passo foi tingir algumas rendas – que eram utilizadas somente em panos de cozinha – na mesma cor dos tecidos nobres, e usar os dois materiais juntos em vestidos de festa. Depois ela fez peças com chita, bordados, labirinto, renda de bilro e até vestidos de noiva feitos com toalhas de mesa nordestinas.

o vestido noiva feito de toalha de mesa de Zuzu Angel

Outro aparecimento marcante do sertão na moda brasileira aconteceu em 2006, com a coleção “O sertão ri”, do também mineiro – e não acaso admirador do legado de Zuzu Angel – Ronaldo Fraga. A coleção foi toda inspirada na obra de Guimarães Rosa, especialmente em Grande Sertão: Veredas. Na apresentação do trabalho, o estilista afirmava: “O sertão é um só, e por não ter portas e janelas ele está em todo lugar.”

O sertão podia não ter portas, mas a moda brasileira tinha voltado a fechar algumas. Quarenta anos após Zuzu Angel, a desvalorização do artesanato nordestino havia voltado a ser uma pesada porta à espera de novamente ser derrubada. A renda de bilro era bonita para levar pra casa como lembrança das férias ensolaradas, mas para as passarelas – e para as vitrines mais refinadas – não servia.

O desfile de Ronaldo Fraga trouxe as cores e as texturas do sertão de volta aos holofotes. Nos anos seguintes, as próprias transformações sociais, que obviamente ecoam na moda, ajudaram a agregar valor e prestígio à estética nordestina. Começou-se a falar em economia criativa, sustentabilidade, e o artesanato ficou chique – passou a ser chamado handmade. Fazer o quê se a moda precisa de um estrangeirismo besta para agregar valor ao que antes não enxergava como tesouro?

modelos da coleção ‘O sertão ri’, de Ronaldo Fraga. Imagem: Oficina de Estilo

Assim, o sertão ganhou passe livre na alta costura brasileira. Entre uma coleção e outra, sempre aparece alguém tomando aquele pedaço de chão como inspiração. Mas o grande destaque dos tempos atuais, o sertão deve ao poder das novelas, como as maiores catalisadoras de tendências de moda do Brasil.

 “Para mim o artesanato nacional sempre esteve na moda, mas é uma surpresa que uma novela de época tenha essa força. O nosso intuito ao conceber e realizar o figurino foi a busca pelas características de cada personagem para ajudar a contar essa fábula deliciosa de fazer e de ver”, pondera a figurinista de Cordel Encantado.

Também têm um quê de fábula algumas coleções de estilistas potiguares inspiradas no sertão. Não por fugirem à realidade, mas por retratarem um sertão de lembranças.

A estilista Eveline Santos, da Avohai, fez uma coleção inspirada na natureza de Jardim do Seridó. As peças são cheias de detalhes que estimulam a memória afetiva de quem cresceu no sertão.

Em Currais Novos encontramos a Ana Marcolina, marca de Luciana Mamede, sempre bebendo na fonte  inesgotável de inspiração que é a região do Seridó.

Já o estilista Riccard8 San Martini, acaba de lançar uma coleção intitulada “Asa Branca”, que tem inspirações que transcendem a localização geográfica, mas que usa materiais tipicamente nordestinos – e já faz sucesso com um bracelete de couro que vestiria tão bem um cangaceiro quanto um gladiador.

croqui da coleção ‘Asa Branca’, de Riccard8 San Martini

Enquanto isso, em Nísia Floresta, a poucos quilômetros de Natal, um homem sonha com um Museu do Vaqueiro. Guardião da estética sertaneja, o empresário, músico e pecuarista Marcos Lopes é um purista quando se fala em tradição nordestina. Ele mantém um espaço onde funciona o tradicional Forró da Lua. O evento acontece uma vez por mês, promovendo um típico forró pé-de-serra, iluminado, é claro, pela lua cheia.

Marcos Lopes tomou pra si a missão de manter vivas as tradições do lugar onde cresceu. Com recursos do Banco do Nordeste (BNB), ele conseguiu viabilizar um projeto que oferece oficinas de sanfona e de artesanato em couro para crianças de Nísia Floresta. O mestre Júnior Souza vem de Cabaceiras,na Paraíba, ensinar a secular arte de trabalhar o couro, principalmente o couro de bode – o mais versátil e maleável. Durante as aulas são produzidos pequenos objetos como chaveiros, sandálias e chapéus em miniatura. A ideia é que com mão de obra especializada, o artesanato em couro possa vir a ser uma atividade econômica para a região.

O mestre explica que, em Cabaceiras, o couro é responsável por boa parte do dinheiro que circula na cidade. “Eu trabalho em uma fábrica de chapéus que fornece para o Nordeste inteiro. O couro é uma atividade econômica forte lá na minha cidade. Tem tradição, né, tem fama, aí todo mundo procura. Não falta trabalho pra quem quer e sabe trabalhar o couro. Já aqui a gente não vê esse tipo de trabalho”, compara.

Enquanto as crianças aprendem os mistérios do couro, é possível observar em cada canto da fazenda um pedacinho de história do Nordeste. Várias partes da indumentária do vaqueiro espalham-se pelo espaço. É o acervo do futuro Museu do Vaqueiro, que, enquanto não tem espaço próprio, fica exposto ali mesmo. Muita coisa está na família de Lopes há anos. Outras tantas são doações de gente que conhece o trabalho dele. Há um projeto aprovado na Lei de Incentivo à Cultura Câmara Cascudo para a construção do Museu, mas os recursos ainda não foram captados. Enquanto isso, Marcos vai catalogando as peças, e contagiando o máximo de pessoas que encontra pelo caminho com sua paixão pelo Nordeste. É assim, com um impressionante entusiasmo ao falar do museu, que ele consegue parcerias para colocar os planos em prática.

Fico imaginando como será quando o museu estiver pronto. Durante a curta, mas intensa “viagem” que fiz, olhando as selas, chapéus e gibões, penso que entrar nesse museu será como atravessar uma porteira de fazenda. Daquelas fazendas que quase todo Nordestino tem na lembrança. Mesmo quem nasceu no litoral e visitava o sertão somente nas férias, como eu. Mesmo quem não tinha essas férias, mas que, ao menos uma vez na vida, foi recebido em uma casa sertaneja.

E aí pensei na força da estética do sertão. Porque sempre que se fala em uma imagem que represente o Nordeste, a primeira visão que nos vem é a do sertão e não do litoral. É admirável o poder de um ambiente cinzento e pobre, que consegue se sobressair à outro leve e próspero.

É a bela vitória da meia-lua com estrela sobre a vela da jangada.

*texto originalmente publicado na revista Preá #24. Para ler outros artigos da revista, consulte a versão on line aqui.


 

O figurino de Camila Masiso (parte 2) – ou “o vestido dos meus sonhos”

No último post eu disse “amanhã vou postar o segundo vestido” e sumi, né? Foi mal galere, mas minha vida extra-blog estava gritando pela minha presença :D

Mas voltando ao que interessa…

Hoje vou mostrar o segundo vestido que escolhi para a cantora Camila Masiso. A primeira parte do look vocês já viram aqui.

No segundo momento do show, queria que ela entrasse com um visual colorido, alegre, leve, mas, ao mesmo tempo, elegante como pedia a ocasião.

Não poderia ser uma estampa pesada. Também não poderia ser nada muito descontraído, com cara de “praia”, nem muito exagerado, com cara de festa. Meu maior medo era algo que ficasse com cara de “madrinha de casamento” hahahahaha.

Aí depois de dar mil e duzentas voltas pelas lojas da cidade, achei esse modelo Vitor Dzenk na Yolla Boutique.

Gente, PARA TUDO!

O vestido é uma obra de arte. A saia tem uma estampa perfeita, que simula o fundo do mar.

São duas saias sobrepostas, com a mesma estampa. Quando elas estão em movimento, dá um efeito 3D e parece que os peixinhos estão se mexendo!!!

as saias bem de pertinho. Estamparia digital é coisa linda de deus!

Olha eu amei muito esse vestido. Trabalhar com moda é sempre um exercício de autocontrole pra mim. Sempre me apaixono pelas peças, e quero ficar com elas. Na maioria das vezes, não é nem pra usar, é só pra ter mesmo, admirar, apreciar como um quadro.

Imaginem um alcoolatra trabalhando de barman… essa é a minha vida!

Mas voltando ao vestido…

O estilista Victor Dzenk é mineiro, e desde muito jovem cria essas maravilhas que a gente simplifica e chama de roupas. O trabalho dele é sempre muito minucioso e caprichado. Tem aquela pitada de arte, e a gente consegue identificar rapidamente quando uma peça leva a assinatura dele.

Falando em assinatura… os vestidos são sempre assinados, e eu acho isso um charme. Me lembra algumas peças que eu garimpo em brechós. Sempre vibro ao encontrar a assinatura de algum artista. Antigamente todos tinham o hábito de assinar suas criações, como obras de arte.

Mas de uns tempo pra cá, a produção em larga escala foi deixando isso de lado. Agora é etiqueta padronizada mesmo. Sorte que alguns ainda conservam a tradição.

a assinatura no tecido. Lindo, né?

E agora vocês podem conferir como ficou o look no palco.

Com o vento que rolava na hora, a saia tinha um balanço lindo. Ficou bem poético.

Quando Camila voltou ao palco com esse look, rolou uma mini comoção, todo mundo aplaudiu. Claro que os aplausos eram para a música também, mas a visual ajudou :D

As fotos não estão lá essas coisas, porque eu estava com sérios problemas para regular a câmera. Mas acho que dá pra ter uma ideia de como era perfeito esse vestido.

O que acharam? :D

O figurino de Camila Masiso (parte 1) – Vestido Uma Graça

Semana passada eu cuidei do visual da cantora Camila Masiso para uma apresentação dela com a Orquestra Sinfônica da UFRN.

O show foi realizado na praça cívica do Campus, no anfieatro. Um local aberto e com MUITO vento. E essa é só uma das coisas que tivemos de levar em consideração na hora de escolher o (s) figurino (s).

Também influenciam: o tipo do show, o horário, o público, o gosto e o estilo pessoal do artista, o tipo físico dele, o estilo musical e mais um monte de detalhes.

No caso de Camila, ela estava prestes a passar por uma experiência única – se apresentar acompanhada de uma orquestra. Não sou cantora, mas acho que todo mundo treme um pouco numa ocasião assim. E o figurino também tem o papel de deixar o artista à vontade naquela situação. O visual é o primeiro contato dele com o público. Antes que as pessoas escutem e “degustem” a voz de quem está em cima do palco, elas já fizeram, mesmo sem se dar conta, um rápido julgamento do visual daquela apresentação.

Mas voltemos à nossa história… decidi junto com Camila que ela deveria subir ao palco vestida de uma maneira diferente da usual. Com um repertório de samba, bossa nova e mpb, ela sempre usa vestidos coloridos, cabelo solto – geralmente adornado por algum acessório.

Decidimos que ela deveria entrar de preto, como todos os integrantes da orquestra. Um visual mais sóbrio, de cabelo preso – que traz mais elegância, mas também ajuda a enfrentar o vento sem terminar o show toda descabelada hehehe.

Depois de algumas músicas com o visual mais discreto e sóbrio, ela teria uma troca de roupa e apareceria com um vestido colorido e esvoaçante (que vocês vão ver no post de amanhã).

Aí começou nossa procura desesperada por um pretinho básico – que não podia ser muito curto, a saia não poderia ser muito leve ao ponto de voar e mostrar o que não deve, não queria tomara que caia e não queria nada muito efeitado nem brilhoso.

Pronto, nem eram tantas exigências assim, mas foi muito difícil encontrar!

SIMPLESMENTE É PRIMAVERA/ VERÃO E AS LOJAS NÃO TEM NADA PRETO PRA VENDER PORQUE “TÁ SAINDO” MUITO COLORIDO, E O COLOR BLOKING E BLA BLA BLA

Olha, fica a dica, todo mundo precisa de vestido preto, independente da estação do ano. Então vamos deixar um pouco a obsessão pela “tendência do momento” e investir no eterno?

Minha salvação foi encontra a Uma Graça, marca potiguar (êeeee!!!)  e bem novinha, que eu ainda não conhecia.

Lá encontrei três modelos que estavam dentro das nossas exigências. Olha que lindos

Acabamos optando pelo modelo da direita.

Apesar de todo preto, tem um detalhe em renda abaixo do busto que o deixa mais sofisticado. Além disso, esse recorte tipo um losango, afina a cintura e emagrece (quem não quer né? kkkk).

Ficou lindo e exatamente do jeito que eu imaginei no palco. Teve uma história absurda com o sapato (que a louca da Camila esqueceu no cabeleireiro, e eu tive que ir correndo ao Natal Shopping comprar um outro sapato em QUINZE MINUTOS).

Tentei tirar umas fotos mas não ficaram muito boas, então peguei essas do facebook dela. Olha como ficou:

as duas últimas fotos (as tremidas) são minhas. Como fotógrafa sou uma ótima produtora de moda kkk

Com esse primeiro vestido conseguimos exatamente o efeito que eu queria. Todo mundo esperava vê-la de vestidinho colorido, como ela usa sempre. As pessoas ficaram surpresas, e a entrada do segundo vestido foi triunfante!

A meu ver, usar um figurino contido, discreto e elegante, foi também uma maneira de reverenciar a orquestra e o momento especial que acontecia ali.

Aguardem amanhã pra ver o segundo look :D

UPDATE: Esqueci de deixar o endereço e o telefone da Uma Graça! A loja fica na Potengi, quase esquina com a Afonso Pena, sobreloja da Linharte. Fica vizinho ao salão de Anninha. Os telefones de lá são 2010 4482 / 8821 2841 / 8856 5048. Procurem Elisângela, que ela vai atender vocês com a maior atenção do mundo!

 

Editorial de debutantes que produzi para a Revista Versailles

Depois da coluna, chegou a hora de mostrar para vocês meu trabalho como produtora de moda na recém-lançada Revista Versailles.

Para a edição especial de aniversário, queríamos fotografar um editorial de moda com o tema “debutantes” – já que quase sempre usamos o tema “noivas”.

Minha ideia era fotografar num belo jardim ao ar livre, com luz natural, terra, muito verde e passarinhos cantando (ok, o audio não iria sair na foto, mas ajudaria a criar o clima hahahaha).

Queria fotos bem lúdicas, leves, divertidas e que remetessem a mundos imaginários.

Mas sabe o que aconteceu? CHOVEU DURANTE UM MÊS INTEIRO EM NATAL e nossa ideia de “ao ar livre” foi – literalmente – por água abaixo.

E aí foi muito importante usar uma regra indispensável para quem quer trabalhar com produção de moda: Tenham sempre em mente um plano B, e não se desespere quando as coisas fugirem do planejado!

Depois de desmarcar o ensaio por duas vezes devido à chuva – e já com o deadline estourado – tivemos que abandonar o jardim com luz natural, e improvisar outro cenário.

Nosso “Plano B” só foi possível graças ao talento da equipe de floricultura do Versailles Recepções. Em um par de horas, os rapazes montaram uma parede viva, arranjos, chão de folhas secas e tudo o mais que precisávamos para o cenário.

Nosso jardim foi montado em um dos salões do Versailles, deu um trabalho danado, mas ficou divino!

Eu sou suspeita para falar dele, mas vocês podem conferir o resultado nas fotos :D

Eu me apaixonei por esse editorial, e serei eternamente grata à diretora geral da revista, Larissa Borges, por ter me deixado viajar nele. A produção executiva foi de Sara Lira, e as fotos de Humberto Lopes.

As modelos são Giorgia Righetti (a morena) e Armanlinda Ribeiro (a ruiva).

E aí, gostaram?

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